Em determinados processos de coaching parece existir uma ânsia de algo meio vago, etéreo, difícil de colocar por palavras: o desejo de leveza.
Deseja-se que não custe tanto aceitar determinada característica (minha ou do outro), que as relações entre colegas de equipa sejam mais harmoniosas, que o trabalho dos meus sonhos apareça finalmente, enfim, para utilizar um chavão recorrente, que exista mais flow.
Não existe nada de errado com estas ambições. São positivas, saudáveis até. O problema não está na vontade de alcançar leveza. O grande desafio consiste em que – basicamente – a leveza dá muito trabalho.
E em que se traduz concretamente este trabalho no desenvolvimento pessoal e profissional e no contexto organizacional?
A leveza exige FOCO
Como ponto de partida, eu devo escolher aonde quero chegar. O teu foco determina a tua realidade. Parece uma constatação evidente, mas nem sempre é reconhecida como condição apriorística. Não posso andar à deriva, empurrar com a barriga, deixar andar. Como a Alice de Lewis Carroll, se não sabemos para onde ir, qualquer caminho serve…
Tenho de traçar os meus objetivos, identificar as minhas metas. Se eu, enquanto líder, quero um melhor ambiente entre os membros da minha equipa, devo escolher conscientemente colocar o alvo na melhoria da comunicação, por exemplo, e nos passos concretos alcançá-la.
A leveza exige REALISMO
Devemos ser ambiciosos nos nossos objetivos, não nos nivelando por baixo. No entanto, frequentemente, deixamo-nos levar por expetativas desfasadas daquela que é a nossa realidade e a dos outros. É urgente uma aceitação inicial daquela que é a nossa circunstância, a nossa contingência. Um líder de uma equipa não deve olhar para os seus liderados com base naquilo que gostaria que eles fossem, mas naquilo que eles são realmente, nas suas características próprias. Só aceitando o que é, posso desenhar e ir implementando a mudança desejada.
A leveza exige TREINO
Nada nos é dado de graça, tudo tem um custo. Para alcançarmos as nossas metas devemos aceitar que vamos cair, que nos vamos levantar e que devemos persistir no caminho traçado diariamente. Raramente o “agora já está feito, não me tenho de preocupar mais”, funciona.
Se pretendo, efectivamente, uma mudança profissional e encontrar um trabalho que me deixe mais realizado, devo traçar um plano de ação para a implementação desta ambição. Tal poderá passar por ir a várias entrevistas, pedir feedback nos projetos para os quais não fui selecionado, trabalhar na minha narrativa profissional coerente e apresentá-la as vezes que forem necessárias.
Atualmente, fruto de alguma (má) comunicação e publicidade, não raras vezes sofremos da ilusão que as coisas deveriam ser mais fáceis, tanto num contexto pessoal como profissional. Como quando vemos os movimentos fluídos e harmoniosos de uma bailarina e nos esquecemos do treino, força e mindset existentes por trás dos mesmos.
Não obstante, não podemos deixar de admitir que tudo o que realmente nos dá um profundo sentido de realização é desafiante, dá muito trabalho. Só à medida que vamos identificando os nossos objetivos e fazendo escolhas para o alcance dos mesmos, com muito treino e desafios, poderemos ir alcançando a tal sensação de fluir, a leveza que – sabemos agora – nos custa tanto a alcançar.
Setembro 27, 2023

