“A que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta gente?
Que fama lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitórias?”
Os Lusíadas, O Velho do Restelo
Os guerreiros
O duelo já começou há muito tempo, mas aparenta estar mais aceso do que nunca. Num dos lados, podemos encontrar a geração X, guerreiros independentes, resilientes e adaptativos. Tendo sofrido intempéries e percalços para alcançar o lugar que hoje ocupam na esfera organizacional, não parecem dispostos a abdicar de um certo status quo.
Noutro lado, vislumbramos os millennials (que – surpreendentemente – já foram mais jovens em idade), brilhantes nativos digitais. Não obstante o lema que carregam orgulhosamente – tu podes ser aquilo que tu quiseres – revelam alguma dificuldade em conseguir livrar-se do rótulo de geração mimada/idealista.
Aqui e ali ainda se podem encontrar, embora em menor número, guerreiros de outras gerações, nomeadamente os baby boomers com os seus valores tradicionais bem definidos, da relevância da carreira, do trabalho e do sucesso profissional.
Surgem e multiplicam-se por todo o lado e a todo o gás, com a força inerente ao sangue jovem, os novos guerreiros – a geração Z – totalmente imersos e conectados ao mundo virtual e das redes sociais, à inteligência artificial, ao metaverso, dir-se-ia não serem criaturas deste mundo.
O campo de batalha
O campo de batalha são as organizações. Tendo em conta o aumento progressivo da idade da reforma, as gerações são forçadas a conviver em conjunto, com o consequente aumento da tensão e conflitos, próprios de quem se arreiga a uma visão diferente do mundo. A batalha tanto se manifesta de forma aberta, com confrontos diretos e assertivos, como numa guerra fria, na qual o não dito e os olhares de lado se multiplicam nos espaços físicos e virtuais.
As armas
Visando a própria auto-perservação e sobrevivência, até mesmo antes de pisar o campo de batalha, as gerações cobrem-se ao desbarato de crenças e pré-conceitos. Qualquer artimanha que as faça sentir mais protegidas, seguras e preparadas parece revestir-se de utilidade. Num estado de animosidade total, tudo simboliza uma ameaça. Recorre-se muito à tecnologia mas é triste verificar que – nesta batalha em especifico – tal não parece ser a resposta mais evoluída ou criativa.
Constata-se a (ausência) de comunicação ou mesmo a comunicação violenta. Dentro do respetivo muro de (falsas) certezas geracionais, a demanda pela aparente segurança impera e é necessário mantê-la a qualquer custo.
O desfecho
O fim de mais um dia, o regresso a casa, todos saem extenuados e doridos do campo de batalha. Entre mortos e feridos, é caso para se perguntar afinal: que geração saiu vitoriosa? A taxa de turnover, os percalços no desenvolvimento de carreira, a ausência de partilha de conhecimento, a desmotivação das equipas e a ineficácia dos planos de sucessão, são exemplos de danos secundários numa batalha sem vencedores, só vencidos. Qualquer que seja a idade/geração, respira-se uma perplexidade comum: quem nos fez velhos tão novos?
E se…?
O retrato acima realizado encontra-se obviamente hiperbolizado e não tem a pretensão de ser espelho fidedigno de todas as estruturas e equipas. Existem organizações e lideranças que estão a fazer um caminho notável no que diz respeito à convivência e comunicação intergeracional das suas equipas e colaboradores. Seria muito salutar que todos pudéssemos aprender com estas boas práticas e as fomentássemos na nossa organização:
– Contribuindo para a desconstrução de crença e pré-conceitos;
– Fomentando a curiosidade intergeracional;
– Facilitando a comunicação empática;
– Reenquadrando as ameaças como excelentes oportunidades.
Quem sabe assim – qualquer que seja a geração de pertença – poderíamos sentir-nos mais jovens, motivados e curiosos, empenhados na co-construção de ambientes organizacionais mais humanos, empáticos e inclusivos.
Janeiro 25, 2024


