Sempre admirei aquelas pessoas que sabem que querem ser advogadas, médicas ou engenheiras desde que se lembram de existir. Eu não sou essas pessoas. Nunca fui.
Em entrevistas de trabalho para vagas nas organizações, já fui acusada de experiências profissionais a mais…muita variedade, foi-me sinalizado, não sem transparecer uma nota de pendor crítico.
De facto, ao reler o meu CV, constato que já passei por diversas experiências profissionais diferentes. Com franqueza, numa primeira fase da minha carreira aparentava não conseguir parar quieta, transitando de projeto e organização com regularidade.
Cheguei mesmo a ponderar o que se passaria de errado comigo?
As voltas que a vida dá
Comecei a trabalhar desde cedo. Durante a faculdade dava explicações de Português a alunos do secundário. Licenciada em Direito, integrei vários escritórios de advogados (grandes e pequenos). Na advocacia interessei-me pelo laboral, pelas associações, pelas ONGDs, pelas fundações, pelas telecomunicações e pelas migrações. No Direito da Imigração, fiz um pouco de tudo, em todas as frentes, deste o direito de asilo à imigração altamente qualificada e políticas publicas. Trabalhei, também, lá fora, noutras culturas, noutros mundos.
Integrei escritórios de advogados, empresas, na causa pública e na causa privada. No ramo automóvel e no ramo da indústria. Fui voluntária. Já tive salários muito maus, salários médios e salários bastante bons (e nem sempre por esta ordem cronológica!).
Constato agora (mesmo sem me aperceber disso na altura) que procurava essencialmente áreas mais relacionadas com pessoas e com a comunicação.
E foi por gostar de áreas relacionadas com pessoas (nas quais pudesse falar com elas, ouvir os seus desafios, as suas dores e aquilo que as motivava) que fui transitando gradualmente para o mundo do Terceiro Setor e, depois, para a gestão de pessoas e equipas.
E tudo isto antes ainda de completar os 40 anos.
Uma nova forma de pensar a carreira
Felizmente estamos a entrar numa era, no âmbito da forma como pensamos carreira, em que nos é permitido, valorizado até, o não saber logo, o dar espaço à curiosidade, ao experimentar. Ao errar. Ao corrigir rotas. Surgem conceitos como o multipotencialismo, os CVs por projetos.
As novas gerações, a tecnologia, os vários modelos possíveis (presencial, digital, híbrido), o ESG inauguram um novo paradigma que nos força a encarar a carreira (e tudo o resto) de forma diferente. Ainda bem que assim é!
Para alguns, a minha experiência profissional poderá aparentar ser uma manta de retalhos. E em certa medida é-o. No entanto, é a minha manta de retalhos. A minha história eu sei contá-la bem, o motivo pelo qual aquele passo foi errático e aquele outro passo foi certeiro. E porque aprendi mais com os passos erráticos do que com os passos certeiros.
As minhas inúmeras experiências profissionais derivadas da curiosidade e intensidade como olho o mundo e as pessoas, permitem-me – muitas vezes – reconhecer o contexto, desafios e dores das pessoas que acompanho, reforçando a empatia.
Depois de concluir a minha certificação em coaching, hoje ajudo pessoas a encontrarem aquilo que as motiva, que as faz mais felizes. Sempre numa lógica integrada das várias dimensões da vida pessoal e profissional porque acredito que não poderá ser de outra forma.
E por isso hoje afirmo (não sem um ponta de orgulho) que NÃO EXCLUO UMA ÚNICA EXPERIÊNCIA DO MEU CV!

