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Já que ninguém me deixa entrar, eu entro sem ser convidada

Esta foi a afirmação com a qual me iniciei no teatro amador. A minha personagem entra em cena de forma decidida e desafiadora e – olhando o publico de frente – afirma-se.

Só com esta entrada, que na verdade é um grito (temos gritos cá dentro!), já tinha valido a pena toda a experiência. Mas o que o teatro me trouxe, tanto a nível pessoal como a nível profissional, foi muito mais…

Sobre o medo inicial

Tenho constatado ao longo da minha vida (só depois confirmei o porquê com a psicologia e com o estudo das emoções e sentimentos) que tudo o que é realmente importante para mim me causa muito medo. É um medo irracional, na medida em, na maior parte das vezes, nem o chego a nomear. Assim, hiperbolizo cenários desastrosos na minha cabeça, muitas vezes sem ligação ao objeto do medo em si, devaneios catastróficos e ameaçadores.

E medo de quê? Sei lá eu, provavelmente de todas as coisas sobre mim que desconheço ainda, que querem entrar sem serem convidadas.

Constato, também, que a evitação daquilo que me causa medo é, muitas vezes, inútil, a emoção agiganta-se e acaba por me perseguir.

Hoje, quando vem o medo, já não fujo tanto. Pelo contrário, já sei que é um sinal que algo importante o fez aparecer naquele momento. Como a um visitante inesperado, ofereço-lhe um café e pergunto-lhe o que trouxe ali hoje.

Assim, quando me apercebi que a perspetiva de experimentar aulas de teatro amador me inundava de pavor, pensei: há qualquer coisa aqui que vale a pena enfrentar.

Sobre treinar atuar

Depois, mesmo que sejamos muito bons ou que tenhamos nascidos com o talento inato para alguma arte ou competência, existe sempre a necessidade do treino e da repetição. Isto é, se queremos ir mais longe.

A exposição ao ridículo, a gestão das emoções, o encarnar uma personagem (ser outro continuando a ser eu), o colocar a voz, o saber andar em palco, entrar, sair, marcar as cenas, a contracena com o outro que é tão diferente de mim, o decorar texto. Nada disto é espontâneo ou natural. Exige treino, treino e mais treino até ao desespero. Mesmo quando não nos apetece mais. O valor de permanecer quando já só nos apetece desistir.

O humor sobre mim, sobre os meus “lados de sombra” que procuro esconder no dia a dia, tudo de isto vem ao de cima (mesmo sem ser convidado!). Uma lição sobre a aceitação da própria vulnerabilidade.

Como fui aprendendo nas aulas, entramos em palco sempre com um propósito (mesmo que este não seja conhecido pela plateia). Importa, na azáfama e excitamento da atuação, nunca esquecer este objetivo primeiro que nos move e nos leva a agir. Apesar de só se revelarem em palco, aprendemos a trabalhar/imaginar o antes e o depois da personagem antes da sua entrada em cena. Não somos seres com existências desgarradas nos vários círculos nos quais nos movemos. As várias esferas e momentos da nossa vida influenciam-se mutuamente. Assim é no teatro e assim também o é na vida.

Sobre a peça

Posso dizer que a experiência de pisar o palco superou todas as minhas expetativas. Os meus colegas mais experientes já me tinham falado sobre a adrenalina e as emoções do palco. Mas, como em tudo, é preciso viver.

A minha personagem apenas entrava em cena numa fase adiantada da peça (até isso tem algum simbolismo com várias experiências na minha própria vida). No primeiro dia, que foi o mais emocionante e o que gostei mais, o que recordo com mais precisão foi a sensação de me esquecer de mim! Encarnei a personagem de tal forma que acho que me confundi com ela. Já não sabia a quantas andava.

Existe uma citação, de um dos meus escritores favoritos, que relata bem a minha primeira experiência de palco “Há muitas pessoas a quem o teatro enche de uma excitação que nenhuma familiaridade consegue destruir. Constitui para elas um mundo de mistério e deleite; proporciona-lhes a entrada num reino da imaginação que intensifica a sua alegria de viver e o seu lado ilusório. Pinta a normalidade da sua rotina com o brilho dourado do romance” S. Maugham.

 

***

Depois da experiência da peça, a vida seguiu o seu rumo e tenho procurado integrar o que vivi (sinto-o como um processo). Os primeiros tempos são desafiantes (então a vida, afinal, é a preto de branco?!).

Penso que o desafio agora é integrar estas aprendizagens, esta vida, no meu quotidiano, na minha rotina diária. Não o assim é em tudo? Que estas experiências nos possam trazer mais riqueza ao nosso dia a dia, no nosso trabalho e nas nossas relações.

Rainer Maria Rilke escreve nas Cartas a um jovem poeta que “Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade”. A ligação entre a expressão artística e a necessidade é tão verdadeira e profunda. Também a minha experiência no teatro amador nasceu de uma necessidade que eu – na verdade – nem sabia que precisava. Uma forma de expressar vida.

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